Original de entrevista publicada na revista Trip de maio de 2007
Em meio à turnê do novo disco do Who, aos toques finais na primeira parte de sua autobiografia, e ao lançamento de um site que cria músicas personalizadas para os internautas, Pete Townshend falou com exclusividade sobre o novo projeto, a banda, sua vida, erros e acertos. E até de Brasil

Pete: 'sou bem-sucedido não porque sou esperto, mas porque eu sou igual às pessoas na platéia'
Há pessoas por aí interessadas em nos transformar em melodias. Inspiradas pela máxima que diz ser a música uma linguagem universal, elas querem nos traduzir em sons, nos tornar fluentes em uma espécie de esperanto musical. Pete Townshend é uma dessas pessoas. Compositor, escritor, dramaturgo ou apenas guitarrista e força criativa (alguns diriam também destrutiva) do Who, o músico inglês que completou 62 anos em maio lançou no dia 25 de abril o Method, "um projeto há muito esperado, um site que gera composições exclusivas para as pessoas que o acessam".
Assim Townshend resume o que ele e outro inglês, o matemático, programador e compositor Lawrence Ball, 55 anos, criaram. Um site em que as pessoas 'posam' para o computador, como fariam para um pintor - os participantes, inclusive, são chamados de 'modelos' (sitters). O software desenvolvido por Ball cria melodias únicas com base em dados pessoais fornecidos pelo internauta. O processo, gratuito, ainda garante um terço do copyright da música ao 'modelo'. Um concerto com obras já produzidas e um CD, Method Music - Imaginary Sitters, Imaginary Galaxies, foram anunciados no dia 25.
Algumas das peças podem ser ouvidas nos sites www.myspace.com/lifehousemethod e www.lifehouse-method.com. O caráter elíptico das composições, como mantras eletrônicos, se deve à admiração de Townshend e Ball pelo experimentalismo transcendental do californiano Terry Riley e do minimalismo do francês Erik Satie (1866-1925). E a semelhança com a sonoridade do álbum Who's Next, de 1971, não é acaso. O Method não é filhote apenas dos sintetizadores, mas do próprio enredo do disco que deveria ter sido a segunda ópera rock do Who - formato em que o grupo foi pioneiro com o álbum Tommy, de 1969.
O projeto, que teria se chamado Lifehouse, acabou abandonado. A trama era uma distopia futurista sobre uma sociedade em que grupos globais determinam, entre outras coisas, o que as pessoas devem ouvir. Rebeldes criam, então, suas próprias músicas. Sua arma, o Method. Em 2001, Townshend lançou por seu selo Eelpie uma série de quatro CDs Lifehouse, fiéis à sua idéia original. Agora, com o desenvolvimento do site Method, ele vê se tornar realidade outra parte de sua ficção. Não apenas verter sentimentos em canções, mas traduzir pessoas em músicas.
Townshend ainda finaliza a primeira parte de uma autobiografia que deve sair em 2008 e cujos trechos podem ser lidos no blog www.petetownshendwhohe.blogspot.com. Com o fim da turnê do Who pelos Estados Unidos, em março, onde divulgava com o vocalista Roger Daltrey o álbum Endless Wire (lançado em 2006 com a mini-ópera rock Wire & Glass), ele concedeu uma entrevista exclusiva por e-mail. Além do Method, falou sobre o Who, música e vida pessoal. E apesar das negociações para shows por aqui não terem avançado, ele dá esperanças: "eu espero poder ir ao Brasil em breve. Me diga, onde você acha que seria o melhor lugar pra tocarmos primeiro?"
Um software que cria música personalizada a partir de dados de uma pessoa é algo fantástico. O Method é uma revolução ou as pessoas terão apenas algo como "eu numa versão ringtone"?
Pete Townshend: Não, tem uma certa semelhança, mas é mais complexo que um ringtone. Cada obra do Method tem cinco minutos de duração. Elas podem ser desaceleradas e estendidas para 15 minutos e então se tornar quase como uma música de meditação. No site de testes a maioria das pessoas está bastante contente com suas músicas, embora eu não me importe se elas gostam ou não. O importante é o "retrato" ser tão autêntico quanto possível.
A música Fragments (do disco Endless Wire), que você diz ser um exemplo do Method em ação, parece bastante seus primeiros experimentos com sintetizadores. Você concorda?
PT: Sim. Em 1971, eu usei órgãos, sintetizadores (e corte de fitas) [de gravadores de bobina] para criar os loops rítmicos que caracterizaram as canções do Who's Next, como Baba O'Riley. Em Fragments, o som de fundo foi produzido pelo programa Method, desenvolvido pelo compositor Lawrence Ball. E eu escrevi a canção em cima disso.
Você sempre foi entusiasta de novas tecnologias, parece fascinado com as possibilidades da interatividade. Você acha que as pessoas estão ficando mais atentas às outras culturas graças à Internet ou elas só mantém e propagam seus velhos preconceitos mais depressa?
PT: Eu espero que possamos aprender mais uns sobre os outros. Você, por exemplo, esta entrevista deve ser difícil porque o Inglês não é sua língua nativa. Mas na Internet, pelo menos, a música é uma língua universal. E aquilo que eles chamam de "The Long Tail" proporciona acesso a todos os diferentes estilos de música do mundo [a cauda longa é um termo cunhado pelo jornalista Chris Anderson, da revista Wired, sobre as listas de links de referências em blogs e sites. A cauda longa significa vender mais vários produtos em vez de vender muito de um único produto]. Isso deve ser algo bom, você não concorda?
Como você acha que será o futuro da música? Composição, venda...
PT: As coisas estão mudando tão depressa que eu não acho que possa prever o futuro. Mas certamente, músicos precisam ser pagos por seu trabalho.
Em 2001, na primeira vez em que o entrevistei, você disse que o Who estava mais para história do que para uma espécie de projeto paralelo. E hoje?
PT: O Who ainda é, e muito, uma celebração da história. Embora desde a morte de John Entwistle [1944-2002, baixista, morto por overdose de cocaína] nós tenhamos sido liberados para fazer coisas novas. Eu sinto que posso colocar algumas de minhas energias criativas nisso que chamamos The Who, mas em alguns aspectos parece um pouco com um projeto solo com o Roger contribuindo. Claro, isso só se aplica ao disco - na estrada nós mesclamos passado e presente.
E ficou satisfeito com o novo disco?
PT: Eu estou muito feliz com ele, principalmente porque eu me diverti muito ao fazê-lo. Os últimos dois discos do Who [Face Dances, 1981, e It's Hard, 1982] foram trabalhos difíceis de fazer, e mesmo meus dois últimos álbuns solo [Scooped, 2002, e Gold, 2005] não foram satisfatórios. Eu gosto da mistura de estilos do novo disco.
Alguns críticos disseram que não há nada novo em Endless Wire, que a maioria das canções poderia estar em um disco do Who dos anos 1970. O que você pensa disso?
PT: Eu queria conectar esse álbum ao último grande disco do Who, que foi Who Are You [1978]. Mas eu acho que há muita coisa nova no disco. Críticos deveriam ouvi-lo mais de uma vez, ele é um álbum lento para se pegar.
E como tem sido a resposta do público às novas músicas?
PT: Maravilhosa. Porém, quando tocamos ao vivo as velhas canções ainda são as mais ovacionadas.
Você acha que hoje em dia os garotos só conhecem o Who como a banda dos temas da série americana CSI?
PT: Há muitos fãs jovens do Who que chegaram até nossa música pelo CSI. Por mim, tudo bem.
Álbuns conceituais e óperas rock são boas ferramentas para passar a mensagem?
PT: Eu não sei. Tudo o que eu sei é que sinto prazer em fazê-los.
Uma canção de três minutos não é suficiente para contar uma história?
PT: Sim, claro que é. Mas não é grande o suficiente para mais de uma ou duas "vozes". Eu gosto de reunir mais personagens e mais movimentação.
Você diria que seu trabalho ainda é relevante?
PT: É difícil dizer. O rock hoje é uma religião tão difundida, com literalmente centenas de grandes bandas fazendo o que o Who costumava fazer. Logo, deveria ser relevante, mas é de vital necessidade? Talvez não. Mas atualmente, muitas bandas mais novas estão mirando o Who para ver o próprio futuro. Por isso, hoje, seja lá o que me aborreça, eu tento ao menos parecer um homem feliz. Eu sou um homem feliz. Eu não era feliz quando era jovem.
Não vai haver turnê sul-americana do Who e com o cancelamento do show na cidade do México, em março, parece que vocês nunca vão tocar na América Latina. Isso é azar?
PT: Foi azar pra vocês, mas sorte minha, consegui uma semana de folga à beira-mar em Miami. É brincadeira. Eu queria muito ir para o Brasil, mais até do que Tóquio, sério.
Os sul-americanos ainda podem sonhar com shows do Who?
PT: Eu acho que porque vendemos menos ingressos do que os empresários gostariam, e o grande aparato de vídeo com o qual excursionamos na América do Norte é tão caro para viajar, nós teríamos de fazer uma turnê especial, tocando em lugares menores, com palco simples e fazer assim desde o início. Eu não tenho idéia como faríamos. Isso sempre foi um problema pra mim. Ir à América do Sul e entrar em contato com um novo público que, a partir daí, pode ficar descontente se nós não formos capazes de continuar voltando. Nós estamos no fim das nossas carreiras, não no começo.
Sua namorada Rachel Fuller gosta de música brasileira. Ela te apresentou alguma coisa?
PT: Gilberto Gil escreveu para ela a respeito do primeiro álbum dela, eu acho. Ele gostou da sua voz sem vibrato, como a da Astrud Gilberto. Eu sempre adorei a batida do violão brasileiro. Muitas das canções que a Rachel e eu compusemos ou tocamos juntos tem um quê de brasileiro nelas. Just Breathe é um bom exemplo, ou Sunrise.
O que você costuma ouvir em casa e nas viagens?
PT: Bartok, Mingus, Joni Mitchell, Bob Dylan, Flaming Lips, Bach, Editors, The Tragically Hip, Sigur Ros, Wilco, etc. Uma mistura.
Quase quatro anos após ter sido advertido pela polícia, a ferida cicatrizou? (Townshend, que anos antes havia admitido ter sofrido abusos na infância, utilizou seu cartão de crédito para acessar, em 1999, um site de pedofilia. Em uma operação internacional que envolvia a Scotland Yard, ele foi detido em 2003. Alegou que fazia pesquisa para um livro contra a pedofilia. Após quatro meses de investigação, a polícia afirmou não ter encontrado material que o incriminasse e apenas o advertiu)
PT: Eu fui bastante arrogante em 1998-1999 tentando criar provas que constrangessem as companhias de cartões de crédito, os grandes provedores de Internet (como Yahoo e Excite) e os produtores de pornografia pesada. Estourou na minha cara. Pornografia infantil na Internet me enfurecia. Eu perdi a perspectiva da situação. Eu fico melhor fora da batalha, trabalhando em silêncio, nos bastidores, para ajudar os sobreviventes.
O que você considera ser seu maior fracasso?
PT: Meu casamento [com Karen Astley, de 1968 a 1994, com quem teve três filhos]. Eu tenho sorte de ter a Rachel, claro, e não gostaria de voltar atrás agora, mas eu sempre quis ser um dos primeiros artistas roqueiros a provar que nós poderíamos ser rebeldes, durões, inovadores e leais, tudo ao mesmo tempo.
E sua maior realização?
PT: Quadrophenia [a segunda ópera-rock do Who, de 1973]. Não é perfeito, mas é provavelmente o mais próximo da perfeição que eu poderia chegar nesse estilo escolhido por mim de rock dramático-musical.
Você se arrepende de algo?
PT: Sem arrependimentos hoje em dia. Não há motivo, na verdade.
Em uma espécie de trecho de suas memórias, você poderia dizer quem é Pete Townshend?
PT: Eu sou uma criança da guerra, um boomer [a explosão demográfica ocorrida no pós-guerra ficou conhecida como baby boom]. Eu sou um de muitos. Mas eu também ainda tento evitar os erros da geração dos meus pais. Minha infância foi cheia de extremos, de escuridão e luz. Eu acho que muitos dos nossos fãs tiveram uma experiência parecida. É por isso que sou bem-sucedido, não porque sou esperto, mas porque eu sou igual às pessoas na platéia.
Se você pudesse, o que diria para o garoto que cunhou a frase sobre morrer antes de ficar velho?
PT: Eu escrevi sobre um estado de espírito. Eu ainda prefiro morrer antes de ficar velho.
Foto: Divulgação
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