Entrevista publicada na revista Ocas" em abril de 2003
Lourenço Mutarelli deixa as HQs e parte para a prosa - e o cinema - com o romance O Cheiro do Ralo
Dono de uma obra quase sempre autobiográfica, autor de 10 livros, várias vezes premiado, publicado no exterior, respeitado pela crítica e, ainda assim, desconhecido do grande público. Lourenço Mutarelli é um quase anônimo pelo simples fato de ter passado 14 de seus 39 anos fazendo quadrinhos.
Esse pseudo-ostracismo tinha tudo para perdurar, não fosse um estalo, no fim do ano passado, que fez Mutarelli se esquecer do desenho e se agarrar à prosa, quando a idéia de um livro lhe veio praticamente "psicografada", como diz. É daí que vem O Cheiro do Ralo (Devir Editora, 144 págs., R$ 19,50), seu primeiro romance, duas semanas na lista de mais vendidos da livraria Fnac, e que acabou por jogar luz sobre toda a sua obra.
A história de um comerciante que luta contra um cheiro que lhe persegue valeu ao autor um convite para trabalhar com o diretor e roteirista Heitor Dhalia (de As Três Marias, longa de Aluízio Abranches) no filme Nina e em uma versão para as telas de O Cheiro do Ralo. Nesta entrevista à Ocas", Mutarelli explica como e porque colocou a prosa à frente dos quadrinhos.
Por que o quadrinista resolveu escrever?
Lourenço Mutarelli: Comecei a fazer O Cheiro do Ralo sem querer, eu brinco que, se eu fosse um cara espiritualista, diria que foi psicografado. Sentei e em cinco dias ele veio. Nem sabia se iria apresentar para alguém ou não, sabia é que não funcionaria em quadrinhos, quis experimentar. Fiz sem nenhuma pretensão, mas depois que estava pronto achei que talvez valesse a pena tentar editar. Até então, deixei claro que não era uma transição, era só uma experiência.
E como você teve a percepção de que a forma teria que ser outra?
LM: Se fizesse esse trabalho em quadrinhos, matava a história. E levaria um ano pra executar. A força está na palavra e não na imagem. Aí, quando surge agora a proposta de virar filme, poderiam dizer: "Mas aí não vai virar imagem?". É diferente, há o ator, que pode subentender um monte de coisa com expressão. Sempre achei que cinema e quadrinhos têm muito a ver, mas agora que participei de um primeiro filme [Nina, como responsável pelos desenhos das animações] vi que é distante. Há semelhanças como têm a pintura e o cinema.
Quando você levou o livro para a editora, apesar de dizer que era só uma experiência, achava que ele seria relevante para sua obra?
LM: Olha, eu digo isso sem nenhuma falsa modéstia porque sou muito rígido com meu trabalho, não gosto de quase nada que faço. Mas esse livro, depois que eu terminei, li como um livro qualquer, e não como um que eu tivesse escrito. Gosto dele, acho a melhor coisa que já fiz. Não sei escrever. Isso é uma coisa legal, não quis criar um estilo. Tem muita interferência dos quadrinhos porque tem muito diálogo, é como se fosse uma história cheia de balões.
Já publicado, você sentiu preconceito do tipo "Hum, um quadrinista escrevendo"?
LM: Minha sorte é que as pessoas certas que pegaram esse livro não sabiam do meu "passado negro", os quadrinhos. Porque, quando ficam sabendo, têm um preconceito muito grande. Por outro lado, houve experiências legais. Quando Marçal Aquino leu - ele sabia que eu vinha de quadrinhos - estava trabalhando com o Heitor Dhalia e sabia que ele iria gostar. Quando o Heitor leu, gostou tanto que viu que eu tinha obras de quadrinhos e leu todas. Mas disse que em outras circunstâncias jamais leria. Reconhece que tem preconceito, se encontrar um álbum de quadrinhos na loja, não compra, a não ser que seja um [Robert] Crumb.
E sua situação mudou?
LM: Se for falar de dinheiro... porque eu estava em uma situação de... O último roteiro que eu fui começar, não tinha dinheiro pra comprar um caderno, estava devendo uma puta grana. Então, virou muito rápido, foi legal. Pô, alguém gostou, estão a fim de apostar no meu trabalho. Mas aí você pensa: "E esses 14 anos?".
Pra que eu vou voltar a fazer quadrinhos? Fazia quadrinhos para o meu pai [morto no fim de 2001, vítima de câncer]. Faço pra minha mulher também, mas aí faço em casa. Não tem muito sentido continuar a fazer quadrinhos. Só se não tiver escolha. Que eu faça, mas que sejam coisas póstumas, não quero vê-las publicadas.
Por que esse desapontamento?
LM: Desencantei-me muito com o retorno de A Soma de Tudo - Parte 2 [lançado no fim do ano passado, último livro da 'trilogia em quatro partes' O Dobro de Cinco, com o personagem Diomedes, e iniciada em 2000]. Acho que a maioria das pessoas não entendeu o que era, isso me cansou. Estou dando um tempo, não sei se consigo parar para sempre. Talvez eu tenha que voltar a fazer ou talvez não consiga ficar sem fazer quadrinhos, porque é uma coisa da qual sempre gostei muito.
Com O Cheiro do Ralo, você foi colocado sob o rótulo da literatura marginal. Concorda com isso?
LM: Quando foi o lançamento do livro, meu editor quis que eu convidasse algumas pessoas para fazer um bate-papo na Fnac. Foram o Valêncio Xavier, o Glauco Mattoso, o Ferréz, e o tema era literatura marginal. Mas não acho que o que o Valêncio faça seja literatura marginal, nem o que o Glauco faz. O Ferréz acho que está mais ligado a isso, o Marçal talvez tenha mais a ver também, que é no sentido de pegar mais um retrato social urbano. Agora, vou sempre ser marginalizado, no pior sentido, porque minhas coisas são feias, sujas. Tudo o que eu toco fica malcheiroso.
Como aconteceu o convite para trabalhar com o Heitor Dhalia?
LM: Ele quis que a gente conversasse sobre O Cheiro do Ralo, achou que meu universo era muito próximo ao da Nina, que é uma desenhista de quadrinhos e é obcecada. Esse filme é uma história baseada no livro Crime e Castigo, do Dostoievski, atualizada. Aí, ele me pediu uma leitura crítica do roteiro e me pediu pra fazer os desenhos. Haverá animações e desenhos nos diários da Nina que revelam o lado psicológico dela.
E o filme O Cheiro do Ralo?
LM: Já está em andamento, o Marçal e o Heitor estão roteirizando. Têm uma visão estética nova, muito mais sofisticada do que eu poderia propor. Vai ser um presente ver o livro pelas mãos do Heitor, vai ser igual a ter meu próprio parque temático. Mas como Nina vai ser lançado em 2004, se tudo for rápido, O Cheiro do Ralo só começa a ser filmado no fim do ano que vem [estreou em 2007 depois de vencer o prêmio do júri da Mostra de Cinema de São Paulo em 2006].
Ainda há tempo para outros projetos?
LM: Sim, estou escrevendo um outro livro, na verdade uma peça... chamo de um musical silencioso. Também quero que saia como livro [O Natimorto, lançado em 2004]. Devo publicar pela Devir umas histórias coloridas que fiz para o site Cybercomix [Mundo Pet, 2004]. Tem também um livro ilustrado que vou retomar, mas não são quadrinhos [A Caixa de Areia, 2006]. E outras idéias estão surgindo [em 2005, a Companhia da Mentira levou aos palcos a peça O que você foi quando era criança?, escrita por Mutarelli].
Foto: Lourenço Mutarelli

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