16.11.07

SEM COMIDA NÃO HÁ PAZ

Reportagem publicada no portal America Online em janeiro de 2006

Mais pobres são o fiel da balança das eleições no Haiti
A escolha do novo presidente no dia 8 de janeiro passa pelas favelas do país, como Bel Air e Cité Soleil, que juntas têm quase um milhão de habitantes

Crianças da favela de Bel Air, em Porto Príncipe: misto de festa e mendicância

Para quem conhece uma favela, nenhuma surpresa. O panorama é o mesmo, algumas vias principais que se ramificam em vielas estranguladas por barracos. As crianças se divertem com a aparição de pessoas com câmera ou filmadora, fazem pose, riem e então pedem comida. Podia ser em qualquer um dos muitos guetos do Brasil, mas as senhas gritadas pelos meninos - "photo, photo" e "manger, manger" - lembram que se trata do Haiti.
A agitação das crianças - e de muitos adultos - ou a desconfiança e mau humor de outros tantos são as reações dos moradores da favela de Bel Air aos jornalistas que aparecem fazendo perguntas e tirando fotografias. O país está às portas de uma eleição presidencial, mas na favela poucas faixas e algumas pichações a favor do presidente deposto Jean-Bertrand Aristide eram as únicas indicações disso em meados de dezembro.
Dos cerca de 8,2 milhões de habitantes do Haiti, quase 2 milhões vivem na capital Porto Príncipe. Encravadas no centro urbano ficam as duas maiores favelas do país, Bel Air, hoje pacificada pelo exército brasileiro, com seus 400 mil moradores; e Cité Soleil, na outra ponta da cidade, com outros 500 mil, e ainda um foco de traficantes, seqüestradores e chimères, os rebeldes pró-Aristide.
As duas são reduto eleitoral do partido criado por Aristide, o Lavalas (em criole, a língua oficial do Haiti, significa enxurrada ou o dilúvio bíblico, numa referência aos tempos em que o ex-presidente era padre). Mesmo exilado na África do Sul, a figura messiânica de Aristide - acusado, entre outras coisas, de enriquecimento ilícito, tráfico de drogas e manipulação das eleições de 2000 - ainda é forte entre a população mais pobre.
Não é à toa que um ex-protegido seu, René Preval, esteja na frente nas raras pesquisas feitas entre os 35 candidatos à presidência. Preval, hoje como candidato independente, foi primeiro-ministro do governo deposto de Aristide em 1991. Depois, sucedeu o mesmo em 1996. Foi o segundo presidente eleito a cumprir inteiro seu mandato e o primeiro a passar o cargo pacificamente no final dele. Não por acaso, novamente para Aristide.

Legitimidade e paz
O desemprego no Haiti atinge 80% da população ativa e quem trabalha ganha por mês menos de 30 dólares (o equivalente a cerca de 70 reais). Apesar da instabilidade crônica, ou por causa dela, o povo mostra interesse pelas eleições. Dos 4,2 milhões de hipotéticos eleitores, mais de 3,5 milhões foram cadastrados. Após sucessivos adiamentos, o Conselho Eleitoral Provisório (CEP) garantiu que o primeiro turno das eleições acontece no dia 8 de janeiro, sob observação de várias entidades internacionais.
Um dos principais motivos para os adiamentos, segundo o CEP, foi a dificuldade em montar postos de cadastramento nas favelas. O governo provisório dizia ser difícil devido aos ataques dos chimères. A oposição alegava ser falta de interesse em dar chance de voto aos seus redutos. A pacificação de Bel Air mudou o quadro. Até mesmo Cité Soleil, ainda uma área de conflitos, ganhou quatro centros de cadastramento.
"Definitivamente o povo está otimista e determinado a fazer algo mudar", diz o porta-voz do CEP, o jornalista Stéphane Lacroix, que ainda arrisca uma análise do país. "O sistema político aqui é diferente do Brasil, nada é tão simples como esquerda e direita. Há vários matizes de políticos e partidos, só nessa eleição são 45 partidos diferentes." Uma certeza se impõe na análise de Lacroix: "Só o processo democrático pode trazer paz ao Haiti."
Em um país que já teve dezenas de golpes de estado e décadas de diferentes ditaduras, a legitimidade das eleições é que dirá o grau de paz que o próximo presidente eleito terá. A questão é tão importante que os principais candidatos assinaram um termo de compromisso no qual afirmam aceitar o resultado das urnas seja ele qual for.
Como é fundamento básico das democracias, caberá à maioria, que nesse caso vive em Bel Air, Cité Soleil e tantas outras favelas do país, ditar esse resultado. Se essa nova oportunidade se frustrar, o Haiti irá condenar mais uma geração à mendicância, a repetir ao mundo "manger, manger".

Foto: Douglas Portari

1 comentários:

Douglas Portari disse...
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