Reportagem publicada na revista Bravo! de fevereiro de 2007
Amyr Klink só decidiu se lançar às epopéias marítimas por causa da literatura. "Descobri o mar lendo, e não morando em Paraty", revela o navegador de 51 anos em entrevista à Bravo! "Não fossem alguns livros, eu estaria com cracas nas canelas de tanto andar à beira-mar. Não teria ido a lugar nenhum"
Com alguns garranchos a título de autógrafo, centenas de exemplares do livro Linha d'Água espalham-se numa grande mesa e em caixas empilhadas pelo escritório. Surpreso por ainda vê-los ali, Amyr Klink pede à esposa, por telefone, ajuda para a secretária, que ali ao lado dobra uma sobrecapa em cada livro, item que faltou para despachá-los. A solução sugerida chama-se Laura e Tamara, as filhas gêmeas de 9 anos do velejador. Marina, a caçula de 6 anos, parece ter escapado da tarefa. Amyr se dá por contente e vai para sua sala. Sobe a escada saltando os degraus de três em três. Tem 51 anos.
A rota traçada na vida desse paulistano é conhecida. Homem de ação, navegou mais de 400 mil quilômetros, circunavegou o globo sozinho, conheceu os dois pólos, esteve mais de uma dúzia de vezes na Artártica - a última delas com a família - , passou o inverno no Pólo Sul, remou da África ao Brasil... Homem de palavras, transformou todas essas experiências em livros, quatro ao todo, com mais de 1 milhão de cópias vendidas, a que veio se juntar agora Linha d'Água, sobre a construção de seu veleiro Paratii 2. A rota de Amyr parte do mar rumo aos livros, mas poucos sabem que essa é uma viagem de volta.
"Eu descobri o mar lendo. Se não fossem alguns livros, eu estaria com cracas nas canelas de tanto andar à beira-mar, em Paraty. Não teria ido a lugar nenhum", diz. Um quase afogamento na infância também o mantinha em terra firme. "Eu tinha trauma do mar. Uma vez meu pai levou a gente ao Guarujá e eu tomei uma onda na areia... Foi só através dos livros que me interessei pelas viagens marítimas". Numa tarde de dezembro, a pedido de Bravo!, Amyr rememorou essa descoberta. Tinha pouco mais que a idade de suas gêmeas - agora atarefadas com o seu livro - quando leu A Expedição Kon-Tiki, de Thor Heyerdahl.
Desmoronando
"Tinha uns 12 anos e me impressionou profundamente". Em 1947, o antropólogo norueguês Heyerdahl navegou do Peru à Polinésia numa espécie de jangada feita nos moldes daquelas usadas por antigos povos peruanos. Queria provar que civilizações sul-americanas podiam ter cruzado o oceano e povoado ilhas do Pacífico. "Foi lançado no Brasil logo em seguida, em 1949, 1950". A impressão causada em Amyr foi tanta que, décadas depois, ele seria o responsável pela reedição do livro no País.
"Nos anos 1980, A Expedição Kon-Tiki foi relançada por grandes editoras no mundo. Eu procurei minha ediçãozinha velha, que já estava desmoronando, e pensei, porque não relançá-la por aqui?". Nessa época, Amyr já era um best seller com seu Cem Dias Entre Céu e Mar, que narra a viagem a remo da África para o Brasil, em 1984. "Eu estava com um certo cartaz e acabamos criando um selo na Editora José Olympio. Um dia, ligamos para o Thor Heyerdahl". As tratativas foram ao gosto de Amyr, práticas, sem firulas.
"Ele morava na Itália, ligamos e ele falou 'claro, pode lançar. O que precisa assinar?'. Não teve contrato, não teve burocracia, nada. E Thor é uma lenda". Esse seria o primeiro de muitos livros sobre expedições e viagens que Amyr indicaria para lançamento no Brasil. Um exemplo é O Último Lugar da Terra, de Roland Huntford, que reconstitui, a partir dos diários de bordo, a disputa pelo Pólo Sul, nos anos 1910, entre exploradores ingleses sob comando de Robert Scott, e noruegueses, liderados por Roald Amundsen. "Assustador. São 700 páginas, mas você não consegue largar".
"A técnica de narração é interessante, alimentada pelos diários. Scott tinha a pena de um escritor muito bom, escrevia muito bem. Mas fica claro o antagonismo dos grupos. Os noruegueses movidos pela paixão; os ingleses, por um ufanismo bobo". E aqui, Amyr mostra sua bronca por uma parcela dos exploradores - e escrevinhadores de livros do gênero - que saem em busca de recordes, fama e holofotes, que ele chama de "palhaçada midiática". Os livros - e autores - que ele admira, quase sempre tratam de descobertas pessoais, mais de renhidas lutas internas, que de quedas-de-braço com a natureza.
Precipício do desconhecido
O Grande Inverno, de Sally Poncet, é seu marco. "Uma obra que é quase uma poesia", elogia. Em meados dos anos 1970, então com 20 e poucos anos, Amyr conheceu um casal de franceses que aportou em Paraty. Eram os velejadores Jérôme Poncet e sua mulher Sally, que se preparavam para passar o inverno na Antártica. "Anos depois, saiu o livro Le Grand Hiver. Foi traduzido para o português por uma editora do Rio de Janeiro, mas houve um incêndio e o estoque queimou. Não foi reeditado". A obra conta os meses em que o casal francês ficou no gelo antártico. "Eu gostaria de relançá-lo."
"Foi uma viagem absolutamente inédita e ousada. Eles se atiraram no precipício do desconhecido. Uma obra de um desprendimento ímpar. Sally ficou grávida e resolveu ter o filho na Geórgia do Sul, que na época não era habitada por ninguém, teve o filho no meio do nada". Se o feito era espetacular mais ainda foi o efeito da escrita de Sally no brasileiro, que até então, achava que veleiros eram barcos de grã-finos. Dizer que o livro fez a cabeça de Amyr é pouco. Ele não só se tornou um velejador, como também protagonizou uma invernagem na Antártica anos depois. Culpa de O Grande Inverno?
"Achei que seria mais um desses relatos de aventura, de histórias espetaculares, escapadas por um triz, como é essa literatura de aventura, quase sempre de baixa qualidade literária. A Sally, ao contrário, desmistificou essa história de riscos e perigos. Foi um livro num tom muito mais intimista". Qualquer semelhança com os livros escritos pelo brasileiro não é mera coincidência. Amyr é um leitor voraz, estudou literatura francesa, tem mais de 3 mil títulos em sua biblioteca, de Balzac a As Mil e Uma Noites, além dos livros sobre viagens.
E não há viagens sem livros. O velejador ainda não conseguiu instalar uma estante na cabine do Paratii 2, mas pelo menos 150 livros viajam com ele. Em 1989, durante os sete meses e meio que passou no inverno antártico - esticando depois o passeio do Pólo Sul ao Ártico, foram 642 dias no mar - levou com ele meia tonelada de livros. E pode-se dizer, voltou com um a mais na bagagem, já que a expedição deu origem ao seu Paratii - Entre Dois Pólos. Mesmo não tendo um perfil contemplativo, entre as mais recentes aquisições de Amyr está um livro sobre identificação de aves.
Não falta poesia também em suas estantes (nas viagens elas ficam por conta do imponderável). "Li os poetas brasileiros. Álvares de Azevedo e Fagundes Varela são alguns dos autores que eu mais gosto", cita e entrega alguma preferência pelos românticos. Para então falar de um romancista mineiro de forte carga poética. "Sempre adorei Campos de Carvalho, o considero o melhor texto em português". A preferência é avalizada também por motivos sentimentais. "Minha mãe gostava muito de A Lua Vem da Ásia". E ainda há os portugueses Camões e Fernando Pessoa.
O último "sugeriu" o nome de um dos livros de Amyr, Mar Sem Fim, sobre sua circunavegação polar, em 1998. Citação a Mar Português, segunda parte do poema Mensagem: "E ao imenso e possível oceano / Ensinam estas Quinas, que aqui vês, / Que o mar com fim será grego ou romano / O mar sem fim é português.". "O mar com fim do poema é o Mediterrâneo, o sem fim, o resto do mundo... ", explica o velejador e, continuando, fala sobre a grandeza da navegação lusa, sua ousadia, conquistas, legado e declínio. Digressão que faria um português ter orgulho de seu fado triste.
Conversar com Amyr Klink sobre livros é falar sobre pessoas e vidas. Sua admiração por uma obra é quase sempre seguida de identificação com o autor. De muitos ele fala com verdadeira devoção. "Eu tinha uma ligação emocional com todas essas histórias, mas nunca imaginei que um dia fosse vivê-las". E também contá-las para, num moto-contínuo, devolver suas experiências à mesma fonte onde um dia havia bebido. "Sem querer, os livros foram desenhando um caminho". Traçaram sua rota. Para o mar e dali de volta para os livros.
Foto: Divulgação

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