Entrevista publicada no portal America Online em junho de 2004
Em entrevista exclusiva à Revista AOL, o jogador Kaká respondeu às perguntas dos internautas sobre o futuro, a vida na Itália e o clube do coração, São Paulo. Além, é claro, de seleção brasileira
Jovem, rico, bonito, religioso. Um sonho de genro para qualquer mãe. E para qualquer pai também, principalmente se ele jogar no time do sogro. Assim é o good boy Ricardo Izecson dos Santos Leite, o Kaká. Aos 22 anos, titular inconteste do meio-campo do Milan, o jogador vê seu prestígio crescer a cada arrancada para o gol adversário, já teve seu contrato prolongado até 2008 e vai receber um aumento de salário, hoje equivalente a quase R$ 6 milhões.
"Estou adaptado, gosto muito de Milão, e não acredito que outro time da Europa possa me tirar daqui", comenta, a respeito das sondagens de outros clubes europeus. Pentacampeão do mundo em 2002 sem quase entrar em campo, Kaká também tem hoje lugar cativo na seleção brasileira de Carlos Alberto Parreira. Nos dois últimos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, apesar de apagado, começou como titular.
E só não está na Copa América por decisão do técnico, que preferiu poupá-lo. "Mas não me sinto garantido, não. No Brasil, surge um bom jogador a cada dia. Quem bobear, fica de fora", prega, humilde. Por e-mail, o jogador falou, com exclusividade, à Revista AOL durante as folgas entre a concentração da seleção em Teresópolis, no Rio de Janeiro, e os jogos em Belo Horizonte e Chile, pelas Eliminatórias.
Na entrevista, dividida em três partes, Kaká também respondeu às perguntas enviadas por internautas. Ele comentou o sucesso, falou da família e da vida na Itália e confessou a paixão pelo São Paulo: "É lá que eu quero encerrar minha carreira".
Você tem noção de que sua carreira se aproxima das de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho? Sua imagem provavelmente será cada vez mais requisitada para comerciais, contratos e promoções extra-campo. Quem cuida disso para você?
Kaká: Meu pai é a pessoa responsável pela minha carreira. Abaixo dele há pessoas que cuidam da parte desportiva e uma empresa que gerencia meu marketing e meus contratos de patrocínio, além de um assessor de imprensa para gerenciar os vários pedidos de entrevista e participação em programas.
Antonio Luiz de Lima (internauta de Tatuí, SP) - Em pouco tempo no futebol europeu você se destacou e em menos de um ano é considerado um ídolo. Nós brasileiros estamos muito orgulhosos com seu sucesso. Continue assim, pois logo pode até receber a Bola de Ouro. Quem é seu conselheiro nesta carreira vitoriosa?
Kaká: Meu pai é muito importante nisso tudo. É com ele que me aconselho e recebo apoio. Tenho também muita fé em Deus e busco na minha crença apoio e tranqüilidade para seguir minha carreira.
Como sua família lida com seu sucesso?
Kaká: Eles são muito tranqüilos e minha fama não mudou tanto assim a vida deles, que curtem muito. Tenho um irmão, o Digão [Rodrigo], que também é jogador. Ele treina nas categorias de base do Milan.
E como você lida com o assédio das fãs? Já passou por algum aperto?
Kaká: Gosto muito do contato com os fãs. Eles me apóiam muito e são parte do meu sucesso como jogador. Nunca passei por nada constrangedor e espero não passar.
Como um rapaz de classe média, que poderia ter feito outras opções, você pensou em escolher outra profissão?
Kaká: Não, sempre sonhei em ser jogador profissional. Essa é a profissão que eu escolhi para mim.
Se um clube inglês lhe oferecesse US$ 90 milhões você sairia do Milan?
Kaká: Tenho contrato com o Milan e pretendo cumpri-lo. Não jogo apenas por dinheiro, estou adaptado aqui, gosto muito de Milão e não acredito que outro time da Europa possa me tirar daqui.
Alé Vasquez (internauta) - Qual a principal diferença entre as torcidas européia e brasileira? Você teve de mudar seu estilo de jogo? Sobre a seleção brasileira, considera assegurada sua escalação?
Kaká: Alé, a torcida é fanática tanto aqui quanto aí. A diferença é que aqui recebo muito o apoio de fãs do futebol de todas as idades e sexos, coisa que no Brasil era mais raro receber. Além de o jogador ter crédito aqui por aquilo que ele já fez. Sobre o estilo de jogo, aqui [no Milan] eu tenho que ocupar um espaço maior no campo e tive que evoluir tática e fisicamente para isso. Sobre a seleção, quero estar sempre nela, mas não me sinto garantido, não. No Brasil, surge um bom jogador a cada dia. Quem bobear, fica de fora.
Qual sua expectativa com relação à seleção brasileira?
Kaká: Ficar nela por muitos anos. E conquistar muitos outros títulos.
E qual seria a seleção ideal para disputar as Eliminatórias da Copa de 2006? Além de você no time, é claro...
Kaká: Aquela que o Parreira colocar em campo, ele entende disso muito mais do que eu. Espero estar no time e jogar.
Eugénio Goussinsky (internauta) - Quais são seus planos em relação à próxima Copa América? Pretende jogar ou acha que a competição vai desgastá-lo, já que por causa dela ficaria sem férias? O Brasil teria chances de ganhar a Copa América com um time reserva?
Kaká: Estou sem férias há dois anos e meio e sinto falta de descanso, mas se me convocarem terei que participar e faço isso sempre com muito amor. O Brasil tem condições sempre de vencer e será candidato ao título. [O técnico Parreira poupou alguns jogadores para a Copa América. Kaká foi um deles].
Sérgio de Sousa (internauta) - Como você faz para conciliar sua vida cristã com o esporte sem se corromper com a fama?
Kaká: Me apoiando no que diz a Bíblia e procurando seguir minha vida como sempre fiz, mesmo antes de jogar bola.
Sérgio Luiz Duarte (internauta) - Em todos os setores existem homossexuais, no futebol não seria diferente. Você já foi assediado por alguém do meio esportivo?
Kaká: Nunca fui assediado, não. Respeito muito a opção de cada um, mas meu negócio é mulher. Todo mundo sabe disso e acho que por isso ninguém nunca me assediou dessa forma.
Para os italianos, Kaká foi o "homem do título" do Milan no campeonato que acabou em maio [de 2004]. Contratado em agosto de 2003 por US$ 8 milhões, o jogador foi um dos investimentos de retorno mais rápido do time milanês nos últimos anos. Vindo do São Paulo em um momento de "baixa", com parte da torcida pegando em seu pé, o jovem de 21 anos se adaptou surpreendentemente não só ao futebol italiano, como também à cultura européia.
Kaká tirou a vaga de ninguém menos que Rivaldo e colocou o português Rui Costa no banco. A quê ele atribui todo esse sucesso? "À minha maturidade", garante, sem modéstia. Em outros assuntos, contudo, o jovem mostra-se bem menos direto. E bastante cuidadoso. Sobre o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, presidente do Milan, e famoso por suas gafes no comando da Itália, ele diz: "é uma boa pessoa e o respeito muito, mas não me envolvo em política."
A que você atribui sua rápida adaptação ao futebol europeu?
Kaká: À minha maturidade, sempre disse que saí na hora certa do São Paulo. Isso é a prova que eu estava certo.
Como foi o aprendizado do italiano? Você está aproveitando sua estada no exterior para fazer algum outro curso, além do de línguas?
Kaká: Foi rápido, tive aulas durante as concentrações e no dia-a-dia pude aprender a me comunicar bem por aqui. Faço agora apenas um curso de inglês.
Já conheceu o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi?
Kaká: Conheci no meu primeiro dia no Estádio San Siro. Ele é uma boa pessoa e o respeito muito. Não me envolvo em política, ainda mais aqui na Itália, mas o presidente sempre me tratou com carinho e respeito, até porque eles mesmos não misturam futebol com a política do Berlusconi...
Sérgio (internauta, de Santos, SP) - Como você vê uma possível contratação de Luís Fabiano pelo Milan? Ele teria condições de se tornar titular, assim como você?
Kaká: Sérgio, o Luis Fabiano é um grande jogador e vai se dar bem em qualquer grande clube do mundo. Sobre a possibilidade do Luís jogar no Milan eu não posso falar, pois não participo disso. Mas gostaria muito de jogar novamente com ele, que é um grande jogador. Se vier para o Milan, tenho certeza que nos ajudará muito.
Você teve problemas com a torcida são-paulina. Os torcedores italianos são famosos por mostrarem vez ou outra seu preconceito ou racismo contra jogadores. Você viu isso acontecer ou sofreu algum tipo de constrangimento?
Kaká: Uma pequena parte da torcida [do São Paulo] teve problema comigo, mas isso faz parte, não guardo mágoa. Eu já vi casos de racismo, sim. Não comigo, mas já vi muito disso aqui na Europa.
Diana (internauta de Cariacica, ES) - Sei que você conhece o Espírito Santo e que já passou férias por aqui, em Guarapari, não é mesmo? Pois é, quando puder venha aqui mais vezes, gostamos muito de você, que cada dia está jogando melhor. A minha pergunta é: como foi a sua adaptação na Itália, com os outros jogadores? Foi difícil no começo ou você se entrosou com todos rapidamente e tirou de letra essas dificuldades?
Kaká: Adoro o Espírito Santo e espero estar em breve por aí. Passei algumas férias em Guarapari, sim. Fui muito bem recebido por aqui [na Itália] e isso eu devo aos jogadores do Milan. Sempre me trataram com muito carinho.
Marcele (internauta de Madri, Espanha) - Conta como é viver na Itália, é bom, a massa daí é boa, as pessoas são mais frias? Pois vivo na Espanha e aqui é tão difícil, sabe? Adorava quando você jogava no São Paulo, sou são-paulina de coração, mas como vim para cá faz um ano, torço para o Real Madrid.
Kaká: Não tenho nenhuma queixa da recepção dos italianos, eles sempre me trataram com carinho e respeito. Vivo uma vida comum aqui, faço as coisas que gosto e estou aproveitado muito para conhecer a Europa. Um grande abraço para você e que Deus te abençoe em Madri.
Como é sua rotina fora dos campos italianos? O que faz o jovem Kaká?
Kaká: Vivo com meus pais e meu irmão. Adoro música, principalmente gospel, e saio sempre pra jantar com meus amigos e minha namorada [a estudante Caroline Celico, de 16 anos], quando ela está aqui.
Patricia (internauta) - Fora dos campos, onde é possível encontrá-lo em Milão? Admiro muito você pela simplicidade e talento.
Kaká: Oi, Patricia. Em Milão, será fácil me encontrar em um clube de golfe (adoro ir com meus amigos), nos cinemas e em vários restaurantes bons que tem por aqui. Quando minha namorada está aqui, viajamos um pouco pela Itália.
Como você vê a fraca campanha do Real Madrid em 2004? Afinal, o time conta com dezenas de estrelas...
Kaká: Não sei dizer, tem que perguntar para alguém de lá. Nem sempre apenas de craques se faz um time. Conjunto e motivação também fazem um time campeão.
Torcedor, sócio, jogador das categorias de base, ídolo. Esse é o histórico de Kaká no São Paulo. Mas títulos pelo clube, ele conquistou apenas um: o Torneio Rio-São Paulo de 2001, contra o Botafogo. E com a mesma rapidez com que foi aceito pela torcida, teve também sua saída criticada por parte dela, que enxergou corpo mole em apresentações apagadas do meia depois de sua negociação com o Milan, em 2003.
O jogador jura que não guardou mágoas. "Adoro o São Paulo, mas não tenho que provar mais nada para a torcida do clube". A maioria dos torcedores são-paulinos, porém, o apóia até hoje. E sonha em tê-lo de volta, de novo envergando a camisa 8. Kaká chegou ao time principal do Tricolor quando contava apenas 19 anos, justamente na final do Rio-São Paulo de 2001. O técnico do São Paulo à época, Oswaldo Alvarez, o Vadão, foi quem lhe deu a chance.
Em pleno Morumbi, o São Paulo perdia para o Botafogo por 1 a 0. Ainda assim, levaria o título graças à vitória conquistada no Rio de Janeiro. Vadão, porém, não queria o título dessa forma e apostou no meia de características ofensivas. Kaká marcou dois gols, garantiu o título ao Tricolor por 2 a 1 e ainda uma vaga no time titular. Virou herói. No ano seguinte, ainda seria convocado para seleção que se tornaria pentacampeã do mundo.
Você guarda mágoas de sua saída do São Paulo, da maneira como a torcida o tratou?
Kaká: Não, adoro o São Paulo, torço muito pelo time e pelos amigos que deixei lá. Foram 13 anos que ajudaram na minha formação como jogador.
Lucas de Aquino (internauta de Uberaba, MG) - Você trocaria o título de campeão italiano pelo de campeão brasileiro de 2002, no qual o São Paulo era considerado o melhor time e caiu na fase final?
Kaká: Lucas, gostaria muito de ter ganho aquele título. Mas perdemos para um grande time, que foi o Santos, e não adianta ficar pensando nisso. Estou feliz com o título italiano e espero ganhar muitos outros.
Uma internauta que se identificou apenas como são-paulina fez o seguinte comentário: 'No São Paulo você jogou mal. Usou o clube como trampolim e não deu nenhum título para nós. Que tal aproveitar esta oportunidade, pedir desculpas e agradecer a toda nação são-paulina pelo que ela fez por você?'
Kaká: Eu estava jogando muito bem no São Paulo e a prova disso foi ter ido para a Copa do Mundo de 2002 jogando pelo clube. Além de ter recebido diversos prêmios importantes como destaque e melhor jogador da temporada. Como já disse, adoro o São Paulo e não tenho que provar mais nada para a torcida do clube.
Você ainda pensa em jogar no futebol brasileiro, mesmo ciente das pressões que poderá voltar a sofrer?
Kaká: No momento não penso em voltar, mas, quem sabe, não termine minha carreira por aí? Sobre pressão, aqui também há muita pressão e, na seleção, nem se fala. Quem não quiser pressão não pode ser jogador profissional.
Osman C. Melo (internauta) - Sou são-paulino roxo, mas lá vai a minha pergunta: seu carinho e amor pelo São Paulo acabou ou sua saída foi uma questão financeira?
Kaká: Nem um, nem outro. Saí pois estava pronto para buscar meu reconhecimento mundial. E jogar em um grande clube na Europa ajuda muito nisso.
Nelson Calil (internauta) - Tenho 62 anos e sou são-paulino desde o nascimento. Estou muito feliz em vê-lo obter sucesso aí na Itália, terra de meus antepassados. Ficarei muito mais feliz se souber que você, depois da sua conturbada saída do São Paulo, continua Tricolor Paulista e, quem sabe, voltar um dia para o nosso amado clube.
Kaká: Nelson, obrigado pelo carinho! Eu continuo Tricolor de coração e sempre acompanho nosso time pela TV e Internet. Quando saí do São Paulo, prometi voltar um dia. Vamos ver, espero que possa realizar esse sonho.
"Estou adaptado, gosto muito de Milão, e não acredito que outro time da Europa possa me tirar daqui", comenta, a respeito das sondagens de outros clubes europeus. Pentacampeão do mundo em 2002 sem quase entrar em campo, Kaká também tem hoje lugar cativo na seleção brasileira de Carlos Alberto Parreira. Nos dois últimos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, apesar de apagado, começou como titular.
E só não está na Copa América por decisão do técnico, que preferiu poupá-lo. "Mas não me sinto garantido, não. No Brasil, surge um bom jogador a cada dia. Quem bobear, fica de fora", prega, humilde. Por e-mail, o jogador falou, com exclusividade, à Revista AOL durante as folgas entre a concentração da seleção em Teresópolis, no Rio de Janeiro, e os jogos em Belo Horizonte e Chile, pelas Eliminatórias.
Na entrevista, dividida em três partes, Kaká também respondeu às perguntas enviadas por internautas. Ele comentou o sucesso, falou da família e da vida na Itália e confessou a paixão pelo São Paulo: "É lá que eu quero encerrar minha carreira".
"Sempre sonhei em ser jogador profissional"
Você tem noção de que sua carreira se aproxima das de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho? Sua imagem provavelmente será cada vez mais requisitada para comerciais, contratos e promoções extra-campo. Quem cuida disso para você?
Kaká: Meu pai é a pessoa responsável pela minha carreira. Abaixo dele há pessoas que cuidam da parte desportiva e uma empresa que gerencia meu marketing e meus contratos de patrocínio, além de um assessor de imprensa para gerenciar os vários pedidos de entrevista e participação em programas.
Antonio Luiz de Lima (internauta de Tatuí, SP) - Em pouco tempo no futebol europeu você se destacou e em menos de um ano é considerado um ídolo. Nós brasileiros estamos muito orgulhosos com seu sucesso. Continue assim, pois logo pode até receber a Bola de Ouro. Quem é seu conselheiro nesta carreira vitoriosa?
Kaká: Meu pai é muito importante nisso tudo. É com ele que me aconselho e recebo apoio. Tenho também muita fé em Deus e busco na minha crença apoio e tranqüilidade para seguir minha carreira.
Como sua família lida com seu sucesso?
Kaká: Eles são muito tranqüilos e minha fama não mudou tanto assim a vida deles, que curtem muito. Tenho um irmão, o Digão [Rodrigo], que também é jogador. Ele treina nas categorias de base do Milan.
E como você lida com o assédio das fãs? Já passou por algum aperto?
Kaká: Gosto muito do contato com os fãs. Eles me apóiam muito e são parte do meu sucesso como jogador. Nunca passei por nada constrangedor e espero não passar.
Como um rapaz de classe média, que poderia ter feito outras opções, você pensou em escolher outra profissão?
Kaká: Não, sempre sonhei em ser jogador profissional. Essa é a profissão que eu escolhi para mim.
Se um clube inglês lhe oferecesse US$ 90 milhões você sairia do Milan?
Kaká: Tenho contrato com o Milan e pretendo cumpri-lo. Não jogo apenas por dinheiro, estou adaptado aqui, gosto muito de Milão e não acredito que outro time da Europa possa me tirar daqui.
Alé Vasquez (internauta) - Qual a principal diferença entre as torcidas européia e brasileira? Você teve de mudar seu estilo de jogo? Sobre a seleção brasileira, considera assegurada sua escalação?
Kaká: Alé, a torcida é fanática tanto aqui quanto aí. A diferença é que aqui recebo muito o apoio de fãs do futebol de todas as idades e sexos, coisa que no Brasil era mais raro receber. Além de o jogador ter crédito aqui por aquilo que ele já fez. Sobre o estilo de jogo, aqui [no Milan] eu tenho que ocupar um espaço maior no campo e tive que evoluir tática e fisicamente para isso. Sobre a seleção, quero estar sempre nela, mas não me sinto garantido, não. No Brasil, surge um bom jogador a cada dia. Quem bobear, fica de fora.
Qual sua expectativa com relação à seleção brasileira?
Kaká: Ficar nela por muitos anos. E conquistar muitos outros títulos.
E qual seria a seleção ideal para disputar as Eliminatórias da Copa de 2006? Além de você no time, é claro...
Kaká: Aquela que o Parreira colocar em campo, ele entende disso muito mais do que eu. Espero estar no time e jogar.
Eugénio Goussinsky (internauta) - Quais são seus planos em relação à próxima Copa América? Pretende jogar ou acha que a competição vai desgastá-lo, já que por causa dela ficaria sem férias? O Brasil teria chances de ganhar a Copa América com um time reserva?
Kaká: Estou sem férias há dois anos e meio e sinto falta de descanso, mas se me convocarem terei que participar e faço isso sempre com muito amor. O Brasil tem condições sempre de vencer e será candidato ao título. [O técnico Parreira poupou alguns jogadores para a Copa América. Kaká foi um deles].
Sérgio de Sousa (internauta) - Como você faz para conciliar sua vida cristã com o esporte sem se corromper com a fama?
Kaká: Me apoiando no que diz a Bíblia e procurando seguir minha vida como sempre fiz, mesmo antes de jogar bola.
Sérgio Luiz Duarte (internauta) - Em todos os setores existem homossexuais, no futebol não seria diferente. Você já foi assediado por alguém do meio esportivo?
Kaká: Nunca fui assediado, não. Respeito muito a opção de cada um, mas meu negócio é mulher. Todo mundo sabe disso e acho que por isso ninguém nunca me assediou dessa forma.
"Fico no Milan até o fim do meu contrato"
Kaká conta o que faz quando não está em campo, sua
adaptação à Itália e seu futuro no time de Silvio Berlusconi
adaptação à Itália e seu futuro no time de Silvio Berlusconi
Para os italianos, Kaká foi o "homem do título" do Milan no campeonato que acabou em maio [de 2004]. Contratado em agosto de 2003 por US$ 8 milhões, o jogador foi um dos investimentos de retorno mais rápido do time milanês nos últimos anos. Vindo do São Paulo em um momento de "baixa", com parte da torcida pegando em seu pé, o jovem de 21 anos se adaptou surpreendentemente não só ao futebol italiano, como também à cultura européia.
Kaká tirou a vaga de ninguém menos que Rivaldo e colocou o português Rui Costa no banco. A quê ele atribui todo esse sucesso? "À minha maturidade", garante, sem modéstia. Em outros assuntos, contudo, o jovem mostra-se bem menos direto. E bastante cuidadoso. Sobre o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, presidente do Milan, e famoso por suas gafes no comando da Itália, ele diz: "é uma boa pessoa e o respeito muito, mas não me envolvo em política."
A que você atribui sua rápida adaptação ao futebol europeu?
Kaká: À minha maturidade, sempre disse que saí na hora certa do São Paulo. Isso é a prova que eu estava certo.
Como foi o aprendizado do italiano? Você está aproveitando sua estada no exterior para fazer algum outro curso, além do de línguas?
Kaká: Foi rápido, tive aulas durante as concentrações e no dia-a-dia pude aprender a me comunicar bem por aqui. Faço agora apenas um curso de inglês.
Já conheceu o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi?
Kaká: Conheci no meu primeiro dia no Estádio San Siro. Ele é uma boa pessoa e o respeito muito. Não me envolvo em política, ainda mais aqui na Itália, mas o presidente sempre me tratou com carinho e respeito, até porque eles mesmos não misturam futebol com a política do Berlusconi...
Sérgio (internauta, de Santos, SP) - Como você vê uma possível contratação de Luís Fabiano pelo Milan? Ele teria condições de se tornar titular, assim como você?
Kaká: Sérgio, o Luis Fabiano é um grande jogador e vai se dar bem em qualquer grande clube do mundo. Sobre a possibilidade do Luís jogar no Milan eu não posso falar, pois não participo disso. Mas gostaria muito de jogar novamente com ele, que é um grande jogador. Se vier para o Milan, tenho certeza que nos ajudará muito.
Você teve problemas com a torcida são-paulina. Os torcedores italianos são famosos por mostrarem vez ou outra seu preconceito ou racismo contra jogadores. Você viu isso acontecer ou sofreu algum tipo de constrangimento?
Kaká: Uma pequena parte da torcida [do São Paulo] teve problema comigo, mas isso faz parte, não guardo mágoa. Eu já vi casos de racismo, sim. Não comigo, mas já vi muito disso aqui na Europa.
Diana (internauta de Cariacica, ES) - Sei que você conhece o Espírito Santo e que já passou férias por aqui, em Guarapari, não é mesmo? Pois é, quando puder venha aqui mais vezes, gostamos muito de você, que cada dia está jogando melhor. A minha pergunta é: como foi a sua adaptação na Itália, com os outros jogadores? Foi difícil no começo ou você se entrosou com todos rapidamente e tirou de letra essas dificuldades?
Kaká: Adoro o Espírito Santo e espero estar em breve por aí. Passei algumas férias em Guarapari, sim. Fui muito bem recebido por aqui [na Itália] e isso eu devo aos jogadores do Milan. Sempre me trataram com muito carinho.
Marcele (internauta de Madri, Espanha) - Conta como é viver na Itália, é bom, a massa daí é boa, as pessoas são mais frias? Pois vivo na Espanha e aqui é tão difícil, sabe? Adorava quando você jogava no São Paulo, sou são-paulina de coração, mas como vim para cá faz um ano, torço para o Real Madrid.
Kaká: Não tenho nenhuma queixa da recepção dos italianos, eles sempre me trataram com carinho e respeito. Vivo uma vida comum aqui, faço as coisas que gosto e estou aproveitado muito para conhecer a Europa. Um grande abraço para você e que Deus te abençoe em Madri.
Como é sua rotina fora dos campos italianos? O que faz o jovem Kaká?
Kaká: Vivo com meus pais e meu irmão. Adoro música, principalmente gospel, e saio sempre pra jantar com meus amigos e minha namorada [a estudante Caroline Celico, de 16 anos], quando ela está aqui.
Patricia (internauta) - Fora dos campos, onde é possível encontrá-lo em Milão? Admiro muito você pela simplicidade e talento.
Kaká: Oi, Patricia. Em Milão, será fácil me encontrar em um clube de golfe (adoro ir com meus amigos), nos cinemas e em vários restaurantes bons que tem por aqui. Quando minha namorada está aqui, viajamos um pouco pela Itália.
Como você vê a fraca campanha do Real Madrid em 2004? Afinal, o time conta com dezenas de estrelas...
Kaká: Não sei dizer, tem que perguntar para alguém de lá. Nem sempre apenas de craques se faz um time. Conjunto e motivação também fazem um time campeão.
"Não tenho que provar mais nada para a torcida"
Kaká fala de seu amor pelo São Paulo, sua
saída e de sua vontade de encerrar a carreira no clube
saída e de sua vontade de encerrar a carreira no clube
Torcedor, sócio, jogador das categorias de base, ídolo. Esse é o histórico de Kaká no São Paulo. Mas títulos pelo clube, ele conquistou apenas um: o Torneio Rio-São Paulo de 2001, contra o Botafogo. E com a mesma rapidez com que foi aceito pela torcida, teve também sua saída criticada por parte dela, que enxergou corpo mole em apresentações apagadas do meia depois de sua negociação com o Milan, em 2003.
O jogador jura que não guardou mágoas. "Adoro o São Paulo, mas não tenho que provar mais nada para a torcida do clube". A maioria dos torcedores são-paulinos, porém, o apóia até hoje. E sonha em tê-lo de volta, de novo envergando a camisa 8. Kaká chegou ao time principal do Tricolor quando contava apenas 19 anos, justamente na final do Rio-São Paulo de 2001. O técnico do São Paulo à época, Oswaldo Alvarez, o Vadão, foi quem lhe deu a chance.
Em pleno Morumbi, o São Paulo perdia para o Botafogo por 1 a 0. Ainda assim, levaria o título graças à vitória conquistada no Rio de Janeiro. Vadão, porém, não queria o título dessa forma e apostou no meia de características ofensivas. Kaká marcou dois gols, garantiu o título ao Tricolor por 2 a 1 e ainda uma vaga no time titular. Virou herói. No ano seguinte, ainda seria convocado para seleção que se tornaria pentacampeã do mundo.
Você guarda mágoas de sua saída do São Paulo, da maneira como a torcida o tratou?
Kaká: Não, adoro o São Paulo, torço muito pelo time e pelos amigos que deixei lá. Foram 13 anos que ajudaram na minha formação como jogador.
Lucas de Aquino (internauta de Uberaba, MG) - Você trocaria o título de campeão italiano pelo de campeão brasileiro de 2002, no qual o São Paulo era considerado o melhor time e caiu na fase final?
Kaká: Lucas, gostaria muito de ter ganho aquele título. Mas perdemos para um grande time, que foi o Santos, e não adianta ficar pensando nisso. Estou feliz com o título italiano e espero ganhar muitos outros.
Uma internauta que se identificou apenas como são-paulina fez o seguinte comentário: 'No São Paulo você jogou mal. Usou o clube como trampolim e não deu nenhum título para nós. Que tal aproveitar esta oportunidade, pedir desculpas e agradecer a toda nação são-paulina pelo que ela fez por você?'
Kaká: Eu estava jogando muito bem no São Paulo e a prova disso foi ter ido para a Copa do Mundo de 2002 jogando pelo clube. Além de ter recebido diversos prêmios importantes como destaque e melhor jogador da temporada. Como já disse, adoro o São Paulo e não tenho que provar mais nada para a torcida do clube.
Você ainda pensa em jogar no futebol brasileiro, mesmo ciente das pressões que poderá voltar a sofrer?
Kaká: No momento não penso em voltar, mas, quem sabe, não termine minha carreira por aí? Sobre pressão, aqui também há muita pressão e, na seleção, nem se fala. Quem não quiser pressão não pode ser jogador profissional.
Osman C. Melo (internauta) - Sou são-paulino roxo, mas lá vai a minha pergunta: seu carinho e amor pelo São Paulo acabou ou sua saída foi uma questão financeira?
Kaká: Nem um, nem outro. Saí pois estava pronto para buscar meu reconhecimento mundial. E jogar em um grande clube na Europa ajuda muito nisso.
Nelson Calil (internauta) - Tenho 62 anos e sou são-paulino desde o nascimento. Estou muito feliz em vê-lo obter sucesso aí na Itália, terra de meus antepassados. Ficarei muito mais feliz se souber que você, depois da sua conturbada saída do São Paulo, continua Tricolor Paulista e, quem sabe, voltar um dia para o nosso amado clube.
Kaká: Nelson, obrigado pelo carinho! Eu continuo Tricolor de coração e sempre acompanho nosso time pela TV e Internet. Quando saí do São Paulo, prometi voltar um dia. Vamos ver, espero que possa realizar esse sonho.
Foto: Divulgação

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