Resenha publicada no suplemento Bravo! Livros em outubro de 2005
Coletânea de textos de Tony Parsons publicados na imprensa dá conta do que é efêmero no pop e do que é permanente em sua cobertura jornalística
Há um lugar onde a infância e a juventude duram dias; a vida adulta, semanas; e a decrepitude chega num raio. A morte, esta não é nem mesmo declarada. Há só o esquecimento, um limbo tão impressionante quanto foram as coloridas horas de clímax. Este é o universo da cultura pop.
Claro, é uma definição limitada da linha de montagem de ídolos e modismos que abastece o mundo da música, da literatura, do cinema e de todo o balaio de gatos que é o mercado cultural. Há, sem dúvida, afortunados que conseguiram se manter anos unindo o que é palatável ao dito gosto médio com aquilo considerado "alta cultura".
Mas o próprio nome desse mundo-relâmpago é um achado pra lá de auto-explicativo. Pop não é apenas a abreviação de popular, é também - e mais - o verbo inglês para aquilo que estoura, que surge do nada. Algo que encanta como uma bolha de sabão e desaparece sem deixar vestígios tão rápido quanto surgiu. Pop é a definição perfeita, curta como deve ser, do mundo do "vai ser bom, não foi?".
E aqui cabe a pergunta: a cobertura jornalística e a crítica dos fenômenos fugidios desse universo tornam-se, portanto, tão efêmeras quanto? Não, necessariamente. Pelo menos é o que mostra este Disparos do Front da Cultura Pop (Ed. Barracuda, 360 págs., R$ 39), uma compilação de reportagens que vão da música aos esportes, de viagens à literatura, de situações do cotidiano à renhida guerra dos sexos. Textos do jornalista inglês Tony Parsons escritos para revistas e jornais entre 1976 e 1994. Parsons foi uma espécie de enviado especial no mundo pop. Quando estreou na profissão, aos 24 anos, no semanário New Musical Express, o jovem se viu, de cara, enfronhado no imberbe movimento punk e sua irmã mais deglutível, a new wave.
Ataque de napalm
"Um barco da polícia nos perseguiu por um tempo enquanto navegávamos rio abaixo. Dava para ver a expressão de decepção deles quando nenhum bebê foi atirado para fora do barco e a Torre de Londres passou sem sofrer nenhum ataque de napalm."
É com esse cinismo que ele envia as novas do jubileu da rainha de 1977, quando, a bordo do Queen Elizabeth, o Sex Pistols desceu o Rio Tâmisa para uma apresentação que terminaria em violência policial da qual nem o próprio repórter escaparia sem hematomas. Óbvio que boas histórias como essa não faltariam a quem esteve, no fim dos anos 1970, no meio de gente como Johnny Rotten e bandas como The Clash. Mas o humor britânico do jornalista e a escrita inteligente salvam até tragédias como um show de Kylie Minogue, já nos anos 1990.
"No Wembley, Kylie fez questão de mostrar que ficaram para trás faz tempo os dias em que ela conseguia arrulhar bobagens idiotas como 'I should be so lucky, lucky, lucky, lucky'. Hoje em dia suas canções revelam uma sofisticação que era desconhecida quando ela não passava de uma garotinha comum. 'I guess I like it, I guess I like it, I guess I like it like that', diz uma de suas músicas novas."
O leitor não precisa saber quem é a cantora (ainda na ativa) para divertir-se com o sarcasmo da crítica contra uma pop star que dizia estar se "reinventando". O texto de Parsons transcende a própria razão de ter existido. Poderia, inclusive, ser reutilizado por aqui. Suas entrevistas também são inclementes. Se foram, de fato, produzidas da forma como são apresentadas, Parsons é um repórter de respeito. É direto e incisivo, sem deixar de ser polido, não esconde sua admiração por certas figuras, sem, contudo, resvalar na bajulação.
Seu bloquinho já anotou falas de, entre outros, Johnny Cash, David Bowie e Bruce Springsteen. As conversas, inquiridoras, por vezes derrubam mitos de alguns entrevistados. Morrissey, por exemplo, lembrado sempre como o melancólico vocalista dos Smiths, surge como um "homem troncudo de Manchester, que fala de futebol e bebe cerveja direto na lata."
Destilaria de gim
Na introdução do livro, o jornalista fala de seu próprio trabalho, também representativo do mundo pop. "Comecei na música e para alguém da minha geração sortuda - bebê quando Elvis vestia 38, criança durante a beatlemania, adolescente quando Bowie começou a fazer sucesso, jovem durante o movimento punk - a música sempre vai ser importante. Nasci na época certa."
Antes de cavar sua trincheira no front do mundo pop, contudo, Parsons trabalhou em uma destilaria de gim. Começou lá com 16 anos e, nos períodos de folga, escreveu o que seria seu primeiro livro, The Kids, publicado quando tinha pouco mais de 20 anos.
O romance lhe abriu as portas para a imprensa. Hoje, é autor de mais de meia dúzia de obras. Uma delas, The Family Way, teve seus direitos comprados pela atriz Julia Roberts, para quem ele finaliza um roteiro do livro. Nada mais pop.
O jornalista produziu ainda documentários, foi comentarista em um programa da BBC, o Late Review, e teve passagens e colaborações para veículos como Elle, The Guardian, Literary Review e Daily Telegraph, Atualmente, trabalha como colunista do Daily Mirror. Ele também escreveu com a mesma ironia, e até virulência, sobre as idiossincrasias das tão bem definidas classes sociais inglesas. Mesmo não tendo inventado as castas, a Inglaterra, foi, com certeza, o país do Ocidente que mais apreço teve por sua manutenção.
Jovem que cresceu nos subúrbios londrinos e que chegou a ser skinhead, o jornalista, no entanto, não é condescendente com ninguém. Chuta as hipocrisias e baixezas tanto da classe operária quanto da aristocracia, estapeando, no caminho, a mediocridade da classe média. "Depois da confusão dos cães assassinos no verão, a nação finalmente acordou para o fato de que existe uma quantidade absurda de animais perigosos, estúpidos e feios no nosso convívio, e que muitos deles têm cachorros grandes", aponta, indicando os verdadeiros culpados do modismo de rottweilers e pit bulls que assolou a Inglaterra. Outro texto que poderia ser usado por aqui...
Já nos artigos de viagem é interessante conferir suas impressões do mundo confrontadas com a experiência de inglês suburbano. O fato de muitos textos terem ficado datados - não no sentido pejorativo, mas de forma que se tornaram instantâneos do período - é um atrativo.
Caso, por exemplo, da visita do repórter a Hong Kong, em 1990, quando os seis milhões de habitantes da cidade, ainda um protetorado inglês, pareciam temer a volta ao domínio chinês, marcada para acontecer em 1997. Era o medo de trocar um império que ruíra havia tempos por outro que parecia (parece) não conhecer limites.
Com olhar agudo, Tony Parsons prova que, mesmo tratando do universo do descartável com a efêmera ferramenta do jornalismo, é possível criar material duradouro quando se desnuda personagens de plástico e situações banais para arrancar de lá a humanidade que se esconde.
Há um lugar onde a infância e a juventude duram dias; a vida adulta, semanas; e a decrepitude chega num raio. A morte, esta não é nem mesmo declarada. Há só o esquecimento, um limbo tão impressionante quanto foram as coloridas horas de clímax. Este é o universo da cultura pop.
Claro, é uma definição limitada da linha de montagem de ídolos e modismos que abastece o mundo da música, da literatura, do cinema e de todo o balaio de gatos que é o mercado cultural. Há, sem dúvida, afortunados que conseguiram se manter anos unindo o que é palatável ao dito gosto médio com aquilo considerado "alta cultura".
Mas o próprio nome desse mundo-relâmpago é um achado pra lá de auto-explicativo. Pop não é apenas a abreviação de popular, é também - e mais - o verbo inglês para aquilo que estoura, que surge do nada. Algo que encanta como uma bolha de sabão e desaparece sem deixar vestígios tão rápido quanto surgiu. Pop é a definição perfeita, curta como deve ser, do mundo do "vai ser bom, não foi?".
E aqui cabe a pergunta: a cobertura jornalística e a crítica dos fenômenos fugidios desse universo tornam-se, portanto, tão efêmeras quanto? Não, necessariamente. Pelo menos é o que mostra este Disparos do Front da Cultura Pop (Ed. Barracuda, 360 págs., R$ 39), uma compilação de reportagens que vão da música aos esportes, de viagens à literatura, de situações do cotidiano à renhida guerra dos sexos. Textos do jornalista inglês Tony Parsons escritos para revistas e jornais entre 1976 e 1994. Parsons foi uma espécie de enviado especial no mundo pop. Quando estreou na profissão, aos 24 anos, no semanário New Musical Express, o jovem se viu, de cara, enfronhado no imberbe movimento punk e sua irmã mais deglutível, a new wave.
Ataque de napalm
"Um barco da polícia nos perseguiu por um tempo enquanto navegávamos rio abaixo. Dava para ver a expressão de decepção deles quando nenhum bebê foi atirado para fora do barco e a Torre de Londres passou sem sofrer nenhum ataque de napalm."
É com esse cinismo que ele envia as novas do jubileu da rainha de 1977, quando, a bordo do Queen Elizabeth, o Sex Pistols desceu o Rio Tâmisa para uma apresentação que terminaria em violência policial da qual nem o próprio repórter escaparia sem hematomas. Óbvio que boas histórias como essa não faltariam a quem esteve, no fim dos anos 1970, no meio de gente como Johnny Rotten e bandas como The Clash. Mas o humor britânico do jornalista e a escrita inteligente salvam até tragédias como um show de Kylie Minogue, já nos anos 1990.
"No Wembley, Kylie fez questão de mostrar que ficaram para trás faz tempo os dias em que ela conseguia arrulhar bobagens idiotas como 'I should be so lucky, lucky, lucky, lucky'. Hoje em dia suas canções revelam uma sofisticação que era desconhecida quando ela não passava de uma garotinha comum. 'I guess I like it, I guess I like it, I guess I like it like that', diz uma de suas músicas novas."
O leitor não precisa saber quem é a cantora (ainda na ativa) para divertir-se com o sarcasmo da crítica contra uma pop star que dizia estar se "reinventando". O texto de Parsons transcende a própria razão de ter existido. Poderia, inclusive, ser reutilizado por aqui. Suas entrevistas também são inclementes. Se foram, de fato, produzidas da forma como são apresentadas, Parsons é um repórter de respeito. É direto e incisivo, sem deixar de ser polido, não esconde sua admiração por certas figuras, sem, contudo, resvalar na bajulação.
Seu bloquinho já anotou falas de, entre outros, Johnny Cash, David Bowie e Bruce Springsteen. As conversas, inquiridoras, por vezes derrubam mitos de alguns entrevistados. Morrissey, por exemplo, lembrado sempre como o melancólico vocalista dos Smiths, surge como um "homem troncudo de Manchester, que fala de futebol e bebe cerveja direto na lata."
Destilaria de gim
Na introdução do livro, o jornalista fala de seu próprio trabalho, também representativo do mundo pop. "Comecei na música e para alguém da minha geração sortuda - bebê quando Elvis vestia 38, criança durante a beatlemania, adolescente quando Bowie começou a fazer sucesso, jovem durante o movimento punk - a música sempre vai ser importante. Nasci na época certa."
Antes de cavar sua trincheira no front do mundo pop, contudo, Parsons trabalhou em uma destilaria de gim. Começou lá com 16 anos e, nos períodos de folga, escreveu o que seria seu primeiro livro, The Kids, publicado quando tinha pouco mais de 20 anos.
O romance lhe abriu as portas para a imprensa. Hoje, é autor de mais de meia dúzia de obras. Uma delas, The Family Way, teve seus direitos comprados pela atriz Julia Roberts, para quem ele finaliza um roteiro do livro. Nada mais pop.
O jornalista produziu ainda documentários, foi comentarista em um programa da BBC, o Late Review, e teve passagens e colaborações para veículos como Elle, The Guardian, Literary Review e Daily Telegraph, Atualmente, trabalha como colunista do Daily Mirror. Ele também escreveu com a mesma ironia, e até virulência, sobre as idiossincrasias das tão bem definidas classes sociais inglesas. Mesmo não tendo inventado as castas, a Inglaterra, foi, com certeza, o país do Ocidente que mais apreço teve por sua manutenção.
Jovem que cresceu nos subúrbios londrinos e que chegou a ser skinhead, o jornalista, no entanto, não é condescendente com ninguém. Chuta as hipocrisias e baixezas tanto da classe operária quanto da aristocracia, estapeando, no caminho, a mediocridade da classe média. "Depois da confusão dos cães assassinos no verão, a nação finalmente acordou para o fato de que existe uma quantidade absurda de animais perigosos, estúpidos e feios no nosso convívio, e que muitos deles têm cachorros grandes", aponta, indicando os verdadeiros culpados do modismo de rottweilers e pit bulls que assolou a Inglaterra. Outro texto que poderia ser usado por aqui...
Já nos artigos de viagem é interessante conferir suas impressões do mundo confrontadas com a experiência de inglês suburbano. O fato de muitos textos terem ficado datados - não no sentido pejorativo, mas de forma que se tornaram instantâneos do período - é um atrativo.
Caso, por exemplo, da visita do repórter a Hong Kong, em 1990, quando os seis milhões de habitantes da cidade, ainda um protetorado inglês, pareciam temer a volta ao domínio chinês, marcada para acontecer em 1997. Era o medo de trocar um império que ruíra havia tempos por outro que parecia (parece) não conhecer limites.
Com olhar agudo, Tony Parsons prova que, mesmo tratando do universo do descartável com a efêmera ferramenta do jornalismo, é possível criar material duradouro quando se desnuda personagens de plástico e situações banais para arrancar de lá a humanidade que se esconde.

1 comentários:
Postar um comentário